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domingo, 26 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 26/03/17

Às escuras


Difícil comemorar esses 245 anos de Porto Alegre em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico

Neste domingo, Porto Alegre está de aniversário. Acenda uma vela. Duas. Três. 245 velas. Talvez elas bastem para iluminar a sua rua, ao menos a sua rua. Aqui perto de casa, teríamos que acender 3 milhões de velas. Um breu.

Porto Alegre, depois que o dia cai, é mais que noturna: é soturna. Eu, intrépida, ainda tenho coragem de sair à noite, mas, nos poucos bairros em que circulo, deparo com um cenário melancólico: um poste de luz aqui, outro acolá, e no espaço entre eles, não sei, não dá pra ver.

Difícil comemorar esses 245 anos em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico. Feito cabras-cegas, estendemos os braços à procura da nossa ex-alegre cidade, mas tropeçamos em calçadas esburacadas, entramos em ruas sem sinalização e temos medo de quem cruza por nós. Um antigo estádio está prestes a cair de podre, a Fundação Iberê está com a fachada suja e portas semiabertas, o Multipalco ainda não conseguiu verba para sua conclusão, obras se arrastam feito lesmas, e o metrô entrou para o folclore gaúcho como o Negrinho do Pastoreio ou a Salamanca do Jarau. Aí retiramos a venda sobre os olhos e tudo continua escuro, não era uma brincadeira, estaremos mesmo nas... trevas?

Corta. Essa é a parte em que interrompo o relato macabro para lembrar que Porto Alegre tem as canchas de beach tênis ao ar livre, tem o Barranco aberto de segunda a segunda, tem dois estádios de futebol bem aproveitados, tem o incansável Luciano Alabarse batalhando pela cultura – e não só ele. Tem o Brique da Redenção, tem o Araújo Vianna, tem o Teatro do Bourbon Country, tem o Theatro São Pedro, tem a L&PM, tem o Hospital Moinhos de Vento, tem o Zaffari, tem o Instituto Ling, tem a Bolsa de Arte, tem a Casa de Cinema, tem a Casa de Teatro, tem a Casa Destemperados, tem o Sarau Elétrico, tem o Vila Flores, tem a Bamboletras, tem o Fronteiras do Pensamento, tem o Porto Verão Alegre, tem a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga e vou parando por aqui porque estou vendo pela janela um sujeito mal-encarado que está bufando por eu ainda não tê-lo citado, e basta de violência, meu lugar é aqui dentro da Revista Donna, não no obituário – não ainda.

Incluo algo mais acessível para quem não pode usufruir de nada que citei acima: temos também um pôr do sol magnífico que não depende de governo nenhum nem da boa vontade de ninguém, mas, ainda que ele seja democrático e nunca falhe, tem sido insuficiente para vermos alguma luz no fim do túnel. Parabéns, Porto Alegre, mas te queremos mais radiante.



Jornal Zero Hora -  26 março 2017
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quinta-feira, 23 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22/03/17


Cachê vexame



Uma ideia criativa alavanca as vendas. Slogans como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “não é nenhuma brastemp” e “bonita camisa, Fernandinho” ficaram no imaginário coletivo e são alguns dos cases que orgulham a propaganda brasileira. Porém, na ausência de uma sacada genial, o recurso é buscar o depoimento de pessoas famosas, já que elas encurtam o caminho até a aceitação do consumidor.

Esta eficiência, claro, tem um preço. Já vi atriz que mora na Barra da Tijuca anunciar um condomínio em Porto Alegre dizendo que era o lugar onde sempre sonhou morar. Por que uma atriz global iria querer morar aqui no Sul? Por nenhum motivo. Ela jamais cogitou essa hipótese. Queria apenas embolsar os 50 mil do cachê para terminar de pagar seu apartamento de frente para o mar. Pareceu-lhe um preço justo pelo vexame de ter que aparecer em horário nobre dizendo uma inverdade.

Por um dinheiro extra – não qualquer dinheiro, mas um extra de muitos dígitos –, há quem deixe o ego de lado. Quem não se lembra de Gloria Pires dizendo que iria nos contar um segredinho? “O Orlando tem caspa”. Pois é, o Brasil inteiro descobriu que o marido de uma de suas mais talentosas atrizes tinha caspa e havia resolvido o problema com determinado xampu. Beleza. Logo o comercial saiu do ar e o casal recebeu sua grana honesta. 

Se o Orlando tinha caspa mesmo, ou ainda tem, será sempre uma incógnita que roubará nosso sono. O que importa é que nenhum crime foi cometido – o consumidor sabe que propaganda testemunhal não é feita por filantropia.

Os cachês são altos porque os riscos também são. Maitê Proença vendeu sua credibilidade para anunciar uma marca de anticoncepcionais que se revelou fraudulenta: algumas mulheres engravidaram por ingerirem pílulas de farinha. A empresa foi autuada e ainda teve que pagar indenização para a atriz, que fez muito bem em buscar seus direitos.

Por essas e outras, é bom pensar direitinho antes de usar a própria imagem para vender detergentes, remédios, sabonetes, cervejas. Vá que o dono da empresa esteja usando uma tornozeleira eletrônica, vá que baratas estejam perambulando perto demais dos estoques, vá que esqueceram de comentar esses detalhes no contrato.

A repercussão da Operação Carne Fraca pode ser exagerada, mas o estrago está feito: Tony Ramos se queimou por enaltecer as virtudes de uma empresa sob suspeita. Diante de uma oferta milionária, não titubeou– alguém iria?

O Brasil não é um bom distribuidor de renda, mas o vexame está ao alcance de todos.




Jornal Zero Hora - 22 março 2017
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@proseandopoesia

domingo, 19 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 19/03/17

Tem homem no mercado


Aconteceu há algum tempo no Rio. Uma mulher colocou um anúncio classificado no jornal em busca de um homem que fosse disponível, hétero e que ganhasse ao menos dois mil reais por mês. Se era piada, funcionou, porque gerou boas gargalhadas. Esta mulher solteira procura não reivindicou honestidade, inteligência, bom humor ou conhecimento geral resumiu-se ao básico do básico. Que o produto não tivesse compromisso com ninguém, que gostasse de mulher e pagasse suas próprias contas.

O que significa que o que sobra por aí é justamente o oposto. A comunidade gay só aumenta. Se o candidato for surpreendentemente hétero, é provável que tenha alguma namorada escondida na manga. E se for hétero, livre e desimpedido, maravilha – mas talvez não tenha grana nem para um pastel de vento, vai encarar?

Vai. Porque o que mais se propaga por aí é a frase “Não tem homem no mercado”, e a mulherada que, como se sabe, não faz outra coisa na vida a não ser se dedicar às pesquisas no súper, se apavora e acaba aceitando qualquer promoção. Homem duro? Serve. Homem casado? Serve. Homem que mora com a mãe aos 45 anos? Serve. Sendo homem, serve.

Até que o cenário piora: é bandido? Serve. Desrespeita você? Serve. Bate em você? Serve. Aí a mulher morre nas mãos desse delinquente e ninguém entende.

Vamos dar um rewind? Começando por parar de divulgar essa ameaça boba de que não tem homem no mercado. Tem, sim. Tem um monte de homem solteiro, separado e viúvo que sonha em encontrar uma mulher madura, companheira e independente. É verdade que há mais mulheres no mundo do que homens, a vantagem é deles, mas apostar no desabastecimento das gôndolas é o caminho mais curto para fazer bobagem. Você acaba se contentando com o que sobrou no fundo da prateleira, já com o prazo de validade vencido.

Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma.

Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis.

Se insistirmos nessa mentalidade medieval, continuaremos propensas a aceitar qualquer carne de pescoço que se passe por filé. Não há por aí quem diga que somos especialistas em detectar os desajustes de ofertas? Então, vamos tratar de pesquisar bem e levar coisa melhor pra casa.

“Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma. Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis”.



Jornal Zero Hora - 19 março 2017
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sexta-feira, 17 de março de 2017

catching rain:

"E no entanto, refaço minhas asas
cada dia. E no entanto, invento amor
como as crianças inventam alegria."




(Hilda Hilst)

quarta-feira, 15 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 15/03/17


Horário comercial



Faleceu ontem, terça-feira, depois de alguns anos respirando por aparelhos, o digníssimo Horário Comercial. Ironicamente, morreu fora do horário comercial, às 23h42min da noite, quando o telefone tocou na casa de uma família que já estava recolhida em seus aposentos, de luz apagada. 

Ao levantar da cama, onde se encontrava deitado, quase pegando no sono, o sr. Vladimir, que acorda todos os dias às 5h da manhã para pegar um ônibus a fim de chegar às 7h30min ao trabalho, arrastou as chinelas até a cozinha, onde fica o único aparelho fixo da casa, e, ao atender, escutou a voz indiferente de uma moça desconhecida que passou a listar as vantagens que o sr. Vladimir teria caso renovasse a assinatura de duas revistas que ele, curiosamente, nunca assinou. Sr. Vladimir, muito gentil, mandou a moça para aquele lugar – a cama dela – e voltou para a sua resmungando qualquer coisa que dona Adelaide, que também estava sonolenta, entendeu com muito custo. 

“Outro que morreu”, foi o que seu marido sentenciou. Aquele telefonema perto da meia-noite foi a pá de cal no que se convencionou chamar de “horário restrito para assuntos comerciais e profissionais”. Não existe mais.

Era um período variável. Das 8h às 18h. Ou, mais curto, das 9h às 17h. Mais curto ainda, das 10h às 16h. Nunca ficou bem determinado, mas subentendia-se que horário comercial era aquele em que as lojas abriam e fechavam, os bancos abriam e fechavam, os escritórios abriam e fechavam, os consultórios abriam e fechavam, e, dentro deste espaço de tempo, os que prestavam serviço se entendiam com seus potenciais clientes.

Parece cena de filme mudo em preto e branco.

Hoje o mundo é uma emergência de hospital 24/7. Você manda uma piadinha por WhatsApp às duas da manhã para uma amiga porque sua emergência é a insônia. Você telefona às 10 e meia da noite para um hidráulico porque sua emergência é um chuveiro pingando. Você manda um SMS de madrugada para o ex-namorado porque sua emergência é atrapalhar o novo relacionamento dele. Você manda uma mensagem para seu secretário pelo inbox do Face, em pleno domingo, porque sua emergência é o narcisismo: precisa sentir que estão todos a seu dispor.

Horário comercial, hoje, é apenas uma lembrança. Entrou para o obituário dos bons modos.



Jornal Zero Hora - 15 março 2017
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Lua:


"No céu está guardado
tudo aquilo que a
memória amou."



(Rubem Alves)

terça-feira, 14 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/03/17

Mal na foto


Não sou muito fã de selfies porque, como se sabe, de perto ninguém é normal a distância sempre induz a uma avaliação mais favorável. Uns dois metros pra trás resolveriam o problema (o problema da espinha no queixo, da cara de sono, daquela pelancazinha danada no pescoço), mas a ordem é ficarmos todos embolados uns nos outros. Chegue aqui, dê um abraço e olhe pra câmera. Agora sorria.

Pronto. Somos dois enquadrados no mesmo click. O grude é obrigatório. O braço estendido e o celular virado pra você e seu mais novo amigo de infância é uma declaração ao mundo: não sou um desgarrado, não sou um papagaio de pirata, não sou um desconhecido que estava passando – eu e a figura aqui somos assim, ó (os dois dedos indicadores lado a lado se roçando).

Selfie, basicamente, é isso: um testemunho de intimidade – se ela existe, de fato, são outros quinhentos. Confesso que já paguei alguns (poucos!) micos ao lado de artistas que admiro. Quem nunca caiu em tentação, tendo a facilidade de um registro para a posteridade? Hoje em dia, faria uma selfie com o papa Francisco fácil, fácil. E com qualquer um dos Beatles e dos Stones. E com aquele cineasta octogenário, baixinho e de óculos que todos sabem que eu venero. Aliás, com qualquer ganhador do Oscar, incluindo OJ Simpson, o negrão cujo julgamento foi tema do documentário premiado este ano.

Ops. Derrapei no politicamente incorreto? Não deveria ter usado a palavra negrão?

Pra muita gente, a derrapagem teria sido só esta, pois se há quem tire selfie com Eike Batista, com o goleiro Bruno, com o Guilherme de Pádua e outros célebres, uma selfie com um ex-astro do futebol americano (que matou duas pessoas, mas isso é um detalhe bobo) seria mais do que compreensível. Caso não tenha ficado claro: esse último exemplo foi apenas para provocar.

Você é íntimo do seu irmão, e também do seu amigo Zé e, claro, da sua cara-metade, mas você não quer passar a vida postando fotos apenas com eles, e sim com algum homem ou mulher que tenha escapado do anonimato e se tornado “alguém”. Se essa criatura costuma aparecer na tevê e você aparece junto com ela na sua página do Face, está feita a ponte: você também passa a ser um pouquinho especial.

Nunca foi tão fácil romper a barreira da invisibilidade, basta um breve momento de tietagem com um ator famoso, um músico famoso ou um assassino famoso. Numa época em que valores essenciais caíram em desprestígio, alguém vai se preocupar com critérios éticos e perder a oportunidade de causar?

Uns e outros se diferenciam, mas a sociedade, como um todo, está mal na foto.




Jornal Zero Hora - 12 março 2017
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quarta-feira, 8 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/03/17

Lugar de mulher


Ou muito me engano, ou as mulheres estão se reproduzindo feito coelhas. Temos irrompido em bando. É muita mulher no mundo. É mulher para tudo que é canto. Uma ocupação epidêmica.

Alguém irá lembrar que não são tantas assim atuando na política, e tem razão – ainda não somos muitas em plenário –, mas tampouco somos maioria apenas em academias de ginástica e salões de beleza. Estamos espalhadas por todos os lugares que interessam, principalmente em ambientes que envolvem arte, cultura, reflexão, conhecimento.

Num espetáculo de teatro, pode reparar: na plateia, só dá mulher. São 10 para cada homem – e acho que estou exagerando na condescendência, talvez sejam 15 para cada um deles.

Dentro de um cinema, a diferença diminui, mas ainda estamos em maior número (outro dia ouvi uma explicação peculiar: é que mulheres vão umas com as outras ao cinema sem nenhum constrangimento, enquanto que um homem não pode convidar um amigo porque pensarão que ele é veado – não é uma sociedade evoluída a nossa?).

Em exposições: mais mulheres, todas absorvendo novidades. Em saraus: mais mulheres, todas escutando poesia. Em palestras de filósofos, escritores, humanistas: mais mulheres, todas de ouvidos atentos.

Em shows: o número tende a se equilibrar, mas ainda mais mulheres. Dentro de livrarias: mulheres lendo, publicando, dilatando o intelecto.

Ganhamos menos do que os homens, e mesmo assim reservamos parte do nosso salário (quando é possível) para atender às demandas da nossa sensibilidade, a fim de termos uma existência mais rica, mais estimulante.

Agora adivinhe quem lota as cadeiras de bares e botecos: mulheres, claro. Depois de ir ao teatro, ao cinema, à palestra, voltar pra casa? Teria graça. Bora conversar umas com as outras sobre tudo o que foi visto, de preferência com um cálice de vinho ou um chope gelado em mãos.

Em substituição ao obsoleto “lugar de mulher é na cozinha”, surgiu o libertário “lugar de mulher é onde ela quiser”. Mas tem que querer mesmo. Ainda há quem se acomode num confinamento providencial (um casamento careta, uma religião limitadora, um martírio inventado, umas dores lombares) a fim de declarar-se impedida de ser livre.

Cada um sabe de si. Ninguém é obrigado a realizar desejos que não tem. Mas pra quem não cansa de expandir-se, a programação é vasta e é proibido bobear. De tudo o que temos aprendido fora de casa, viver com sabedoria tem sido a melhor lição.



Jornal Zero Hora - 08 março 2017
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segunda-feira, 6 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 05/03/17

A pessoa certa


Você pensa que encontrou alguém com quem não irá brigar jamais e que vai se encaixar com perfeição na sua ambiciosa procura pela pessoa certa, esta que não existe

Algumas frases se propagam sem que saibamos quem é o verdadeiro autor. É o caso de Enquanto não surge o homem certo, vou me divertindo com os errados, que eu ouvi pela primeira vez num programa da Marília Gabriela ou será que li numa camiseta? Que a frase é espirituosa, nem se discute, mas é uma cilada: acreditar que existe a pessoa certa é a razão dos nossos problemas de relacionamento. Por que a gente insiste em acreditar em lendas?

Essa entidade abstrata – a pessoa certa – é aquela que vai entender todas as suas manias, vai adivinhar quando você quiser ficar em silêncio, terá o corpo e a rosto que você idealizou em seus delírios românticos e a sua mãe – a sua, não dela – vai aprovar sua escolha assim que abrir a porta da sala de visita. Bastará uma rastreada com o olhar e logo ela piscará pra você como quem diz: agora sim.

Agora sim o quê? Agora você pensa que encontrou alguém com quem não irá brigar jamais e que vai se encaixar com perfeição na sua ambiciosa procura pela pessoa certa, esta que (atenção, spoiler) não existe.

A pessoa certa pra você é a errada. Lembra da pessoa errada?

Morava no cafundó do Judas. Ria alto. Não entendia muito os filmes de que você gostava, mas fazia comentários deliciosos a respeito. Era muito mais velha que você. Ou muito mais jovem que você. Não parava em emprego algum e sua coleção de ex era preocupante. Que saudade da pessoa errada.

Nunca acertou um único presente – mas lembrava de todas as datas. Depois de uma hora e meia ao telefone, queria falar um pouco mais e ficava triste se você sugeria que desligassem. Como amava você a pessoa errada.

Não conhecia nenhum de seus amigos. Nem você os dela. Fumava demais. Ou bebia demais. Ou ambos. Mas nunca teve passagem pela polícia. A fissura por previsões astrológicas era meio exagerada, e já estava na hora de aprender a arrumar a bagunça que era seu apartamento, mas nunca deixou de sair do banho perfumada. E molhando o chão do quarto, claro. Era a incorreção mais bem-vinda para aquele seu momento de entressafra, não era?

Até que surgiu a pessoa certa. Toda a família comemorou e os amigos respiraram aliviados: agora sim, você tinha alguém a sua altura, agora sim, você não precisaria mais passar por altos e baixos, agora sim, nunca mais um barraco, nenhuma surpresa. Agora sim, um casal padrão.

Quase posso ver você, daqui a uns meses, usando uma camiseta que diz: “Enquanto não surge a pessoa errada, vou me entediando com as certinhas”.




Jornal Zero Hora - 05 março 2017
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sexta-feira, 3 de março de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 01/03/17

Um pedaço de papel


As festas de entrega do Oscar são cronometradas por softwares avançados. Efeitos especiais já foram utilizados durante as cerimônias para mostrar atores conversando ao vivo com personagens de animação. A tecnologia é aliada do cinema. No entanto, foi um pedaço de papel o causador do mico histórico no último domingo. O analógico deu uma rasteira na fantasia de Hollywood.

Logo após terminar o seu discurso de agradecimento, o produtor de La La Land, Jordan Horowitz, informado sobre o engano, viu-se na difícil tarefa de dirigir-se a seu concorrente e fazer justiça: “Moonlight é o melhor filme do ano. Não é piada”. E então a equipe do alegre musical desceu do palco arrasada e a equipe do drama subiu ao palco sorrindo, numa irônica troca de posições. Sim, foi uma gafe, um papelão, mas não chego a lamentar a falha que humaniza todo script ensaiado.

Justamente quando nada pode dar errado é que o errado subverte as expectativas e desmonta a farsa da perfeição, lembrando que, afinal, a vida é assim mesmo, nem tudo funciona. Claro que, para a indústria cinematográfica, não é tão simples: o filme vencedor fatura milhões, alavanca carreiras, estabelece parcerias comerciais. Mas, para nós, é apenas mais um filme que ganhará um homenzinho dourado no cartaz. Aqueles 10 minutos de improviso é que entrarão para a história.

De repente, ninguém mais tinha texto decorado e o teleprompter não servia pra nada. A orquestra ficou sem ter o que tocar. Um produtor que já havia agradecido à mãe, à esposa, ao pai, aos filhos e ao Espírito Santo foi do céu ao inferno em segundos. Ryan Gosling, com seu ar blasé providencial, não devia estar feliz desde que viu Casey Affleck papar a estatueta de melhor ator. Pois a confusão o favoreceu: sua perda deixou de ser individual para se tornar coletiva. 

Warren Beatty ganhou um protagonismo inesperado, apesar de não ter culpa pela troca de envelopes. Seu vacilo foi não ter dito “tem algo estranho acontecendo aqui” quando percebeu a encrenca. Em vez disso, passou a batata quente pra Faye Dunaway, que fez o que toda mulher faz quando vê um homem enrolando: “Deixa que eu resolvo”. Mal vislumbrou um “La” em letras miúdas e secundárias, bradou ao microfone, confiante, o nome inteiro do filme. Cyborg, que tinha visão supersônica, não seria tão rápido.

Algum problema? Nenhum, apenas pessoas fazendo o que fazem todo dia: se virando. Para os organizadores e auditores do Oscar, foi um vexame planetário, mas para nós, espectadores, compensou. A mais importante noite do cinema, com um enredo que todo ano se repete, desta vez caprichou naquilo que realmente nos empolga: ofertou um final imprevisível.



Jornal Zero Hora - 01 março 2017
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quarta-feira, 1 de março de 2017


Emmanuelle-Brisson10:

"Hoje eu vejo que não sobrevivi a nada:
Eu apenas renasci. 
Apesar de tudo."



(Marla de Queiroz)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017



"Me abrace essa noite
Noite após noite
Que bênção estar vivo
Aqui do seu lado"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cheiro de hortela: A historia de maria                                                                                                                                                                                 Mais:

"Cultivar um jardim é
acreditar no amanhã."


(Audrey Hepburn)
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