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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Imagem de girl, beach, and summer


"Despir uma peça e outra de ansiedade, deixar o tempo fluir em paz, acalmar aquela ideia fixa um pouco, diminuir o volume da barulheira mental, mudar o destino do foco só pra variar, mesmo que nem dure muito, costuma criar um lugar de descanso aprazível e reparador na  nossa vida.

Quando não há mais nada que possamos fazer para tentar modificar algumas circunstâncias, o que existe de mais confortável no mundo, é sem duvida a liberdade da entrega e a coragem da aceitação de que as coisas possam ser simplesmente como são."



(Ana Jácomo)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 04/12/16

Seu terapeuta é feliz?

Ele não pode ter uma vida, apenas uma carreira. Tem que fixar residência no consultório e estar sempre a nossa espera de banho tomado e alma lavada

Outro dia acompanhei uma conversa instigante. Em meio a um grupo, uma mulher comentou o quanto havia ficado desconcertada ao saber que sua analista não era feliz. Havia se tratado com ela por três anos, nada sabia da vida íntima da profissional com quem tanto havia desabafado e agora, depois de muito tempo, havia descoberto que a analista tinha problemas pessoais e que inclusive havia tentado o suicídio uma vez.

A tentativa de suicídio me pareceu um acréscimo sensacionalista à história, mas, desconsiderando esse detalhe, me concentrei na fantasia que alimentamos a respeito desses profissionais.

Eles ajudam a amenizar nosso sofrimento emocional, a tomar decisões necessárias para que a vida destrave, a compreender e perdoar nosso passado, a vencer medos e traumas, enfim, fazem uma assistência técnica básica. Para que o processo dê resultado, contam com nossa sinceridade e confiança, e é por isso que despejamos, sem reservas, tudo aquilo que ocultamos até de nós mesmos. Declaramos abertamente nossas fraquezas, recalques, frustrações, taras, dificuldades. O que esperamos em troca? Que eles já tenham resolvido todas essas questões em suas próprias vidas para que possam se concentrar na nossa.

É um delírio, mas ficamos mais descansados assim.

Até que um dia descobrimos, sabe-se lá como, que aquela criatura que parecia acima do bem e do mal é uma pessoa que bebe muito, que não consegue manter relações afetivas por mais de seis meses, que já atropelou um cachorro e fugiu, que sofre até hoje por um grande amor perdido, que tem medo de andar de elevador, que coleciona multas de trânsito, que não fala com um irmão há sete anos.

Isso significa que ele não é feliz? Apenas significa que é mais parecido com um ser humano do que com Deus.

Eis a encrenca: ele não pode ser parecido com um ser humano, ou seja, conosco. Se não resolveu suas próprias tranqueiras, que habilidade terá para lidar com as tranqueiras dos outros? Não admitimos que ele enlouqueça de ciúmes, que tenha vaidades, que guarde segredos, que morra de sono no meio da tarde, que sinta tédio, raiva, claustrofobia. Não pode estar atolado em dívidas, não pode ter um botão faltando na camisa, não pode fumar, não pode atrasar, não pode chorar.

Ele não pode ter uma vida, apenas uma carreira. Tem que fixar residência no consultório e estar sempre a nossa espera de banho tomado e alma lavada. Encontrá-lo com um carrinho lotado de cerveja no caixa do supermercado exigirá de nós muito autocontrole.

Desejamos que nossos terapeutas sejam perfeitos, e é por isso que eles costumam acertar no nosso diagnóstico: no fundo, somos todos uns narcisistas.




Jornal Zero Hora - 04 dezembro 2016
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016





"Conta-me outra vez: é tão bonita
que não me canso nunca de a ouvir.
Repete-me de novo, os dois da história
foram felizes até à morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de a enganar. E não te esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
continuavam a beijar-se cada noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais linda que conheço."




(Amalia Batista)

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 30/11/16

O inusual


Costumo ir ao Rio com frequência para cumprir compromissos, e sempre volto com alguma história para contar, ainda que nem sempre conte. Desta vez, trouxe duas que valem o registro.

A mais incrível foi ter sido entrevistada pelo Tony Ramos para a segunda temporada do programa A arte do encontro, que vai ao ar pelo Canal Brasil. Não bastasse o privilégio do convite, o que aconteceu durante a gravação me fez duvidar do meu instinto de preservação: sem aviso prévio, sem ensaio, com o programa em andamento, fui intimada a fazer com ele a leitura de um trecho de um livro de Philip Roth. 

Cinco páginas de diálogos entre um homem e uma mulher. Deveria ter saído correndo, mas não só encarei, como fui atrevida o suficiente para dar um leve toque de interpretação à minha personagem, a fim de não deixá-lo atuando sozinho. Ao final da cena, eu estava emocionada, não porque tenha sonhado alguma vez em ser atriz, mas porque sempre acreditei que a maravilha da vida está nesses pequenos milagres embrulhados para presente e entregues na sua mão num dia que você pensava que seria igual aos outros.

A segunda história: eu estava no Rio, também, para fazer uma sessão de autógrafos, que aconteceu às seis da tarde numa livraria lotada, em Ipanema. Eu estava sentada nos fundos do ambiente, à distância de uns 50 metros da única porta de entrada. 

Havia dezenas de pessoas à minha frente, todas aguardando sua vez, com celulares em punho para a selfie. Perto de mim, meu editor, alguns amigos, o staff da livraria, um garçom oferecendo água. Todos os olhares convergiam para onde eu estava, e então, casualmente, dei falta da minha bolsa, que estava apoiada no encosto da cadeira. Achei que alguém a tivesse guardado, mas não: ela foi furtada diante dos olhos de todos por uma gangue. 

As câmeras internas de segurança registraram a ação. Um homem e duas mulheres entraram na livraria apinhada, caminharam até onde acontecia a muvuca, e com uma ousadia bem ensaiada, fizeram um furto num ponto onde não haveria rota de fuga no caso de um flagrante – mas nada disso os intimidou. Foram bem-sucedidos não porque não houvesse ninguém olhando: foram bem-sucedidos porque todos estavam olhando – mas as pessoas só enxergam aquilo que esperam ver.

O inusual nunca está no script. Mas ele acontece, para o bem e para o mal, desmontando as nossas previsões. Estamos em plena vigência da experimentação da vida, com tudo o que ela traz e nos tira. Nossa obrigação? Manter os olhos abertos para além do previsível, e a alma preparada.    -

Este texto já estava pronto quando soube da tragédia de ontem: para esse tipo de episódio inusual, nunca estamos preparados. Minha profunda solidariedade à família dos atletas e jornalistas falecidos, e um abraço muito especial aos amigos Georgete e Paulo Paixão.



Jornal Zero Hora - 30 novembro 2016
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 27/11/16

EU INTERMINÁVEL


A cada dia, eu vou assimilando novos elementos à minha identidade, essa identidade que nunca se conclui

Quando parece que já sabemos direitinho quem somos, um novo dia amanhece e traz hesitação: fica claro que não, que não existe essa história de estar completo, finalizado. Eu sei quem sou até este exato instante em que escrevo, mas antes de terminar este texto há uma chance de tudo mudar. Pode o telefone tocar e eu ser convidada para algo que nunca fiz, ser procurada por alguém que vai mudar minha vida ou golpeada por uma notícia que me amadurecerá. 

E serei um pouco mais (ou um pouco menos) do que sempre fui, este sempre fui tão cheio de ondulações e curvas minha vida é uma estrada quase sem retas e sem uma pista para acostar.

A cada dia, um fato vira memória, uma pessoa volta do passado, uma ilusão se desfaz, outra desperta, o céu troca de cor, um plano ganha avalista, as vontades confabulam, e eu vou assimilando novos elementos à minha identidade, essa identidade que nunca se conclui. Queria tanto saber quem sou, mas como arriscar uma definição se ainda me restam três ou quatro parágrafos e um punhado de anos pela frente?

Tenho duas dúvidas a tirar com um colega com quem iniciei um novo projeto, uma declaração ensaiada para quando estiver frente a frente com alguém que nunca ouviu de mim certos verbos, uma alegria ao antever o encontro com uma amiga que está longe dos meus abraços, fome de algumas coisas que ainda não provei e umas incertezas que doem e para as quais não há cura enquanto eu não acabar de me entender, e eu não acabo nem quando me deito e durmo.

Eu apago e acordo no sonho, no delírio etéreo de uma noite povoada por desejos inconscientes e mensagens que decifro com dificuldade, há alguma coisa em mim ainda sendo construída, e quando desperto de fato, este dia a mais de vida me encontra ainda mais indefinida.

Então abro a janela e o céu está com uma luz diferente, tenho um receio que não tinha antes e um problema a menos a resolver, um compromisso apressa meu banho e o reflexo do espelho revela que emagreci, descubro uma saudade ampliada de alguém e um desdém que não estava ali, o dia não é o mesmo de ontem e eu já não sou também.

E ao ligar o computador para responder à pergunta de um estudante de Jornalismo que pede para que eu me revele, que eu explique, afinal, quem sou, de preferência com poucas palavras e precisão, invento qualquer bobagem que justifique a que vim, que esclareça como fui parar aqui e ser assim, enquanto trato de espiar as previsões astrais para o meu signo, de lidar com os espantos e o mistério que ainda não elucidei – e diante de tanto “não sei” me deformo, me reformo, me amoldo, me dilato e admito, ao menos para mim, que sou isso, um eu sem fim.




Jornal Zero Hora - 27 novembro 2016
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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 23/11/16

Embriagado pela vida


Não é a primeira vez que escrevo sobre o cineasta Domingos Oliveira e o efeito que ele provoca em mim. Não consigo distingui-lo do seu trabalho, é como se homem e obra fossem uma coisa só. Seus filmes são extensões do seu corpo, ele fica de mãos dadas com cada um da plateia.

Domingos é uma declaração de amor ambulante. Um hedonista, um libertário, um filósofo, um ser pulsante que alterna erros e acertos sem o menor constrangimento porque sabe que a vida é assim mesmo e tentar enquadrá-la como algo plano e sensato seria uma hipocrisia.

Fui assistir ao seu premiado BR716 e saí do cinema com minha admiração confirmada. Domingos já está em seus 80, mas sua alma não tem idade, não acusa o passar do tempo, ele ainda é aquele morador de Copacabana que vivia embriagado de álcool e de enlevo pelas belas garotas que circulavam pelo seu apartamento – BR não é a sigla de uma rodovia, e sim as iniciais da Rua Barata Ribeiro, onde ele morou no início dos anos 60, pré-golpe militar, dando uma festa atrás da outra enquanto tentava escrever um livro. O que não deixa de ser uma viagem.

Caio Blat, que interpreta o alter-ego de Domingos, está perfeito em sua caracterização, melhor do que os atores que interpretam o alter-ego de Woody Allen e chegam lá medianamente. No início, o seu jeito de falar soa estranho, mas logo a gente acostuma. Sophie Charlotte humilha: nunca esteve tão linda, sexy e cativante. Sergio Guizé, no papel de um ativista político regado a algumas doses extras, faz rápidas e definitivas aparições – carisma puro. 

A fotografia em preto e branco é colossal, mas funciona também quando é apenas simples. Os ângulos passam de óbvios a surpreendentes numa piscadela. É tudo dessa forma irregular, incongruente e absolutamente natural. Domingos é Nouvelle Vague e Cinema Novo, é profundo e é comédia, foco e desfocagem intercalando-se.

Como não se deixar seduzir? Seus filmes não parecem filmes, parecem uma pessoa, com caráter e defeitos. Não há sexo explícito, e sim paixão explícita, verdade explícita: Domingos mostra mulheres e homens contraditórios, malucos, românticos, confusos. As falhas não são deletadas, e sim assumidas. Vale tudo, porque o tudo é desse jeito mesmo, múltiplo. Somos amorosos e cafonas, inteligentes e ciumentos, sérios e divertidos. Não existe a supremacia de um aspecto sobre outro, o meu ponto de vista versus o seu. Viver é um projeto coletivo, aberto ao transitório, em que só o que importa é o movimento dos nossos desejos.

Parece um elogio ao filme, mas é um elogio ao ser humano, ao Domingos e a nós todos, no que restou da nossa saudável embriaguez dos sentidos.



Jornal Zero Hora - 23 novembro 2016
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Imagem de love, couple, and boy

"Se você me desse
a tarde,
eu alegremente
a trocaria 
por uma crase."



(Carlos Emílio Faraco)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Para Lorena

O Jailson me escreveu contando que hoje vocês completam 3 anos juntos. 
Além disso, ele também me contou que você é o amor da vida dele (assim mesmo, em negrito) e que você é uma benção em sua vida e que o faz feliz todos os dias.

Felicidades e muito amor pra vocês dois. Sempre!





E esta foi a crônica que ele pediu para publicar pra você:



Tocar a felicidade com os dedos


Entendi que a felicidade não é um alvo concreto atingido, e sim a conexão profunda que fazemos com uma emoção subitamente despertada

Quase consigo visualizar a cena. O músico e poeta Serge Gainsbourg está em Londres, o ano é 1971. Numa clínica privada, sua mulher Jane Birkin está em trabalho de parto. Ele alterna batidas aflitas na porta do quarto com idas ao bar do outro lado da rua. Até que nasce Charlotte, que, por uma série de contingências e burocracias, é proibida de ser visitada pelo pai. Quatro ou cinco dias depois, ele recebe a permissão e, após vê-la, sai em caminhada pelas ruas. É madrugada. Chove. Ele anda a esmo por duas horas, em total estado de encantamento. Mais tarde, diria sobre o episódio: Nunca fiz um passeio mais feliz na minha vida. Naquela noite, toquei a felicidade com os dedos.

Pincei esse relato do ótimo livro de entrevistas Entre aspas 2, de Fernando Eichenberg. Fiquei alguns minutos pendurada nesta frase. Tocar a felicidade com os dedos.

Não costumamos ser muito delicados com a felicidade. Geralmente queremos conquistá-la, agarrá-la, retê-la e sorvê-la: verbos antropofágicos que induzem a uma dominação ansiosa e sem chance de fuga. Estamos sempre famintos dela e, quando a chance aparece, nhac. Garantimos nosso quinhão.

Você compra sua felicidade em butiques, agências de viagem, mesas de restaurantes, e depois a fotografa e posta no Instagram e no Face. Está capturada sua felicidade. Enquadrada. Sobrevivendo através da memória.

Mas não através da poesia. A felicidade não retribui a assédios grosseiros. Não gosta de muito barulho. Tem sensibilidade a holofotes. Quem gosta de festa é a alegria. A felicidade prefere ser encontrada – e tocada – com mais discrição e leveza.

Sentada numa pedra diante de um lago, eu estava só. O ano era 1986. Foi talvez minha primeira impressão de felicidade absoluta – tudo que eu havia vivido antes eram alegrias. Naquele exato momento que não tinha nenhuma importância, numa data que não era alusiva a nada, eu entendi que a felicidade não é um alvo concreto atingido, e sim a conexão profunda que fazemos com uma emoção subitamente despertada.

Você inaugura uma nova etapa de vida. Não teme mais as interrogações. Descobre-se capaz de amar num estado de pureza plena. Você se perdoa. Você se cura. Você se reconhece. Consegue ser grato por coisas mínimas. E por bênçãos extraordinárias. Você perde o medo da vida. Você entende o que está acontecendo. Você sente a potência de um sentimento especial sem precisar segurá-lo com as mãos, sem retê-lo com as palavras, sem sofrer pelo seu inevitável desaparecimento. O simples roçar de dedos no sublime garante a eternidade do instante.


(Martha Medeiros)
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domingo, 20 de novembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 20/11/16

Pense antes de dar um flagra


Redes sociais são parques de diversões. Alguns não sabem a hora de saltar do brinquedo e se atrapalham

Enquanto ele me contava sua história, eu ia lembrando outras histórias semelhantes, em especial a de uma amiga que teve os e-mails devassados pelo marido. O que foi descoberto? Apenas que ela conversava com um ex-namorado. Claro que havia no ar um clima amistoso de quem já dividiu lençóis e lembranças, mas não estava acontecendo nada. Eram provocações, insinuações, enfim, as inofensivas seduções das quais adultos se valem quando querem se divertir redes sociais são parques de diversões. Alguns não sabem a hora de saltar do brinquedo e se atrapalham, porém outros conseguem manter a suavidade da troca erótica sem provocar fissuras em seu status oficial.

Até que alguém desconfiado e ciumento crônico invade o que era para ser privado.

Eu continuava escutando meu amigo contar sua história. Ele tinha feito a maior burrada da vida: entrado no Facebook da namorada. Ela era seu grande amor, mas ele não havia gostado do jeito maroto com que ela havia cumprimentado um sujeito num bar e foi corroído por uma imaginação mortal. Em um dia que ela foi viajar, ele aproveitou para rastrear suas conversas inbox. Não encontrou nada que a condenasse, a não ser o conhecido tom jocoso que muitas vezes usamos em bate-papos particulares. Quando ela retornou de viagem, olhou para ele calmamente e disse adeus. Nem deixou que ele explicasse. Já estava sabendo que ele havia vasculhado sua correspondência.

Meu amigo estava desnorteado. Perguntava: você acha que eu ainda tenho chance com ela? Pouca. Não apenas porque ele havia sido invasivo, mas também porque a invasão dele fez a namorada sentir-se envergonhada da própria frivolidade e das emoções incoerentes que regem a ela e a todos nós, mesmo quando já somos maduros. O namorado a enxergou despida de um jeito que ninguém poderia.

Não foi o flagra de uma traição, que afinal não havia, e sim o flagra da carência existencial que poucos superam, e de uma vaidade também sem controle. Podem não ser qualidades honrosas, mas são absolutamente humanas.

Se alguém está se sentindo inseguro com seu par, que pergunte diretamente a ele sobre o que está acontecendo e conforme-se com a resposta. Se não se conformar, separe-se, pois ninguém merece viver torturado pela dúvida. Separar é uma saída mais digna do que bisbilhotar: encontrando ou não as pistas que busca, o fim do relacionamento será iminente, pois um limite foi transposto. Tentar trazer à tona, na marra, os segredos e fantasias do outro, é violar um espaço que pode não ser belo, mas é sagrado.

Meu amigo aprendeu a lição, mas terá que testar esse aprendizado com seu amor futuro.




Jornal Zero Hora - 20 novembro 2016
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so beautiful![I will really keep fast hold of you with my right hand of righteousness Isa.41:10]:

"Sonhei que Deus - todo pequeno gesto de amor - 
não frequentava igrejas, livros ou estátuas.
Apenas corações...
Só corações."



(Poeta Sérgio Vaz)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 16/11/16

A nudez de Rita Lee


Abri a primeira página da autobiografia de Rita Lee e não parei mais, a ponto de esquecer o resto da vida. Em meio ao terremoto na Nova Zelândia, minha filha, que mora lá, chamou pelo WhatsApp e eu: “Só um pouquinho, Julia, deixa eu terminar esse capítulo e já falo contigo”. Credo. Esse tal de roquenrou contamina.

Tenho um fraco por biografias escritas pelo próprio biografado. Nada se compara à fluidez da “primeira pessoa”, essa gentil narradora do próprio caos, com vista privilegiada para tudo o que aconteceu. Ainda mais se tratando de uma “primeira pessoa” tão desprendida e sem censura – quem passou boa parte da carreira tendo que prestar esclarecimentos para dona Solange (personagem emblemática da ditadura) não iria se policiar na hora de mostrar o que há por trás das cortinas. Rita Lee conta tudo com a maior desfaçatez e graça. 

Dá nome aos bois. Faz lavagem de roupa suja. Dá os créditos a quem merece. Faz um registro sincero das incontáveis vertigens de sua montanha-russa particular: estão lá todos os altos e baixos. Os baixos narrados sem autocomiseração ou culpa, os altos contados sem vaidade ou presunção. É a história como de fato foi, sem esconder nada (se escondeu, foi melhor a gente não saber).

Durante a leitura, lembrei com saudade da Rê Bordosa, personagem maluca e apaixonante criada pelo cartunista Angeli. Que fim levou a rebeldia?

Em uma das passagens do livro, Rita Lee diz que uma vez a convidaram para sair pelada numa revista masculina, e ela respondeu que faria as fotos, sim, mas com três condições: vestida de freira, sem óculos e sem franja. Era sua ideia de nudez.

Ligeira e espirituosa, Rita nunca perde ocasião para sair em defesa da sua identidade – de todas elas. A revista não havia se dado conta de que nunca houve mulher tão despida entre nós, tão francamente exposta – pousar nua pra quê? Rita fez o que quis, e fez de diversos jeitos. Agiu certo, agiu errado, pagou por algumas mancadas, não deixou conta pendurada e agora, sim, entrega o striptease tão sonhado por seus fãs, ao som de sua própria canção: “Qual é a moral? Qual vai ser o final dessa história? Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo. Eu não tenho muito que perder, por isso jogo. Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho”.

Mergulhada numa banheira de espuma, com um copo na mão, ela é Rê Bordosa, Erva Venenosa, Miss Brasil 2000, meio Leila Diniz e totalmente Rita Lee: uma gata ainda gastando suas sete vidas.



Jornal Zero Hora - 16 novembro 2016
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/11/16

Perdidamente


Estabilidade é ausência de emoções fortes. Quando um desejo, finalmente, se cumpre, aí é que a bagunça se instala e o tempo desenfreia-se

Amizades passam por fases, como os amores. Fase do grude, fase do silêncio, fase da demolição, fase da reconstrução. Tenho uma amigona com a qual eu andava na fase grude, só que ela se apaixonou e saiu de cena com o novo namorado. Hoje nós duas estamos na fase qual é mesmo o teu nome?, mas ela me mandou um WhatsApp dia desses dizendo que sente minha falta e que um dia irá voltar, como se estivesse num paraíso perdido. Ora, ela está o que é uma bênção. O que me comoveu foi a sua definição do momento atual: A felicidade anda me desorganizando.

A gente busca a felicidade como se ela fosse um pacotinho escondido atrás da Torre Eiffel, como se ela estivesse resumida a seis números de loteria, como se ela viesse dentro de uma bolsa de grife, como se sua chegada dependesse de uma foto no jornal, de uma capa de revista: cada um vai atrás da sua felicidade idealizada e acredita que só ao alcançá-la é que a vida finalmente entrará nos eixos.

É o contrário. Aí é que a vida ficará de pernas para o ar.

A cada manhã, levantamos da cama com a esperança de que o dia nos surpreenda, mas as surpresas não são cotidianas, não ficam tão disponíveis, elas são sorteadas aqui ou acolá, escapando de qualquer planejamento. Enquanto nada de especial acontece, a gente está no eixo, muito no eixo. Estabilidade é ausência de emoções fortes. Quando um desejo, finalmente, se cumpre, aí é que a bagunça se instala e o tempo desenfreia-se.

A felicidade (aqui traduzida por uma alegria incontida, não a felicidade da paz de espírito) nos desorganiza, de fato: minha amiga tem total razão, ela que deixou de ser regida pelo cérebro há alguns meses e se tornou ainda mais inteligente. A felicidade é carnavalesca, dança de um lado para o outro, se traveste, se fantasia, retira o relógio do nosso pulso, joga longe nossos sapatos, passa a ser regida por calafrios, não mais por conversas sensatas. Destrava, desalinha, e nós, seus portadores, desalinhamos juntos. Filhos, amigos, parentes: realidade demais, xô. 

Esse tipo de felicidade (repito: a do enlevo, do encantamento profundo) não tem laços vitalícios com ninguém, ela é uma chama, um raio, um cometa, intuímos sua efemeridade e queremos mantê-la acesa o máximo de tempo possível. Obediência a calendários e compromissos conduziriam ao fim deste fervor, mas tudo o que queremos é que este fervor permaneça, mesmo que ao custo do nosso despreparo para ele, mesmo que pareçamos fora do esquadro. Ok, pagamos o preço. Desorganizados, mas radiantes.

É possível ser feliz e ao mesmo tempo organizado, mas você entendeu: não estou falando da felicidade comum, aquela incluída em nossos afazeres diários, e sim do êxtase, esse adorável corruptor da nossa agenda.




Jornal Zero Hora - 12 novembro 2016
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