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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017



"Me abrace essa noite
Noite após noite
Que bênção estar vivo
Aqui do seu lado"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cheiro de hortela: A historia de maria                                                                                                                                                                                 Mais:

"Cultivar um jardim é
acreditar no amanhã."


(Audrey Hepburn)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017



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notas sobre ela

ela ia assim
em busca
de sentir em
qualquer canto
um encanto qualquer



(Zack Magiezi)

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/02/17

Recompensa instantânea


As pessoas estão amando com a profundidade de um lava-pés. Esqueça mergulho. Ninguém está com tempo para ir tão fundo

Uma amiga me escreve chorando as pitangas: mais uma história de amor terminou para ela. Eu, que nem sabia que ela estava namorando, de repente descubro que no fim do ano ela conheceu um homem encantador, que ambos estavam no céu, mas ele puxou o freio de mão e sumiu. Diz ela que havia acreditado em cada eu te amo dele, que confiava quando ele dizia sou seu. Que tipo de cafajeste desfaz um romance sólido de uma hora para a outra?

Ela seguiu com o desabafo e eu só pensava num aspecto, aquele que dizia que haviam se conhecido no fim do ano. Se entendi bem, estamos falando de um mês de relação (ela me escreveu dia 22 de janeiro). Eu te amo. Sou seu. Entregues em 30 dias.

Houve um tempo em que as pessoas temiam se comprometer pela palavra. “Te amo” não era xaveco, e sim a declaração de um sentimento raro, que não se distribuía feito senha. Abria um portal. Era um presente ofertado a quem tivesse modificado nosso jeito de estar no mundo, o selo de qualidade de uma relação que não era como as outras. Não que houvesse garantia de amor eterno, óbvio que não, mas dizia-se essa frase para um homem ou uma mulher com quem desejávamos festejar junto um aniversário, ao menos.

Agora “te amo” virou xaveco, sim. Depois de meia-dúzia de WhatsApp: “Te amo”. Sem nem mesmo terem se visto antes.

Quem não gosta de ouvir? Amor é nosso sonho de consumo, é o maior afago que podem fazer ao nosso coração combalido por frustrações e abandonos, é a confirmação de que não suamos a camiseta à toa, alguém percebeu nosso esforço em ser desejável, caiu na nossa conversa, acreditou no nosso empenho em ser engraçadinho: merecemos essa gorjeta afetiva. “Te amo” está valendo uma moeda de 50 centavos.

Ainda assim, é de se lamentar a violência do tombo quando, com a mesma rapidez que o “te amo” foi dito, é retirado de cena e deslocado para outro objeto amoroso, como quem troca de mesa no bar para não ficar tão perto da cozinha. Aquele que se sentia especial descobre-se mais um. Tempos modernos: as pessoas estão amando com a profundidade de um lava-pés. Esqueça mergulho. Ninguém está com tempo para ir tão fundo.

Minha amiga erra ao sentir-se traída pelas palavras: mesmo nós, que fazemos declarações cautelosas, estamos sujeitos a entregar, um dia, nosso “te amo” para outro locatário – é do jogo. Não se pode cobrar pelo o que foi dito, muito menos hoje, nessa era megainstantânea. O Don Juan disse “sou seu” para não cansar minha amiga com explicações, pois fosse menos romântico e mais sincero, teria dito: “Sou seu aqui, em cima do seu corpo, neste momento exato de prazer e gozo, apaixonado por este instante, voraz pela mulher que tenho agora diante do meu rosto, sou seu, meu bem, até que levante e vá ao banheiro escovar os dentes”.

Melhor a síntese.




Jornal Zero Hora - 12 fevereiro 2017
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/02/17

The Brothers


“O documentário faz a gente se reapaixonar pelos Beatles”, escutei alguém dizer, e eu que não estava pensando em assistir a Eight Days a Week por preguiça e presunção de que já sabia tudo, corri para o cinema e confirmo: sim, o documentário faz a gente se reapaixonar pelos Beatles sem remorso por estar chovendo no molhado.

Nada de fofocas, dramas, romances. O objetivo do filme é registrar as turnês da banda, desde os primeiros shows no Cavern Club, em Liverpool, até as apoteóticas apresentações nos maiores estádios do mundo, culminando com a última, em 1966, em San Francisco. Quatro meninos de 17 anos que começaram a tocar por diversão e que não pararam de se divertir nem mesmo quando se transformaram nos ícones absolutos da cultura pop. O segredo: convivência intensa, muita risada e o lema dos mosqueteiros: todos por um. 

A primeira providência de Brian Epstein, o classudo empresário da banda, foi mandar fazer ternos idênticos para John, Paul, George e Ringo, e dali por diante eles passaram a ser um só: “Um monstro de quatro cabeças”, como brincavam entre eles. Era um grude: dormiam sob o mesmo teto, faziam as refeições juntos e nada era decidido se os quatro não estivessem de acordo. Em meio a entrevistas, não perdiam a piada. O sucesso veio rápido e a gaiatice continuava. Era uma turma de colégio, uma gangue de rua: os The Beatles eram também The Brothers.

Até que o prazer deixou de ser essa coisa toda. Quando começaram a fazer shows colossais, não conseguiam mais escutar um ao outro no palco – cortesia do público gritante. Passaram a se sentir inseguros e cansados. Chegaram a fazer 90 cidades em 15 países numa única turnê. Sua juventude foi consumida pela beatlemania e um dia se viram adultos participando de um circo que não divertia mais: 

“Fecharam o boteco”, como diz um amigo, e voltaram para o estúdio, onde praticamente inventaram uma banda nova (ainda mais extraordinária) a partir do antológico álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Só três anos depois do jejum de shows, é que voltaram a cantar em público, de surpresa, no terraço do prédio da Apple Records, em Londres, para alguns sortudos desavisados que estavam passando lá embaixo a caminho da padaria.

E foi seu réquiem: no mesmo ano, a banda se desfez.

Desfez em tese, porque é um fenômeno vitalício. Os Beatles não se pareciam com nada que havia surgido antes e jamais foram igualados depois, apesar das boas tentativas. A maior banda do planeta nunca teve mais do que dois roadies por show. Nada de telões. MTV. Redes sociais. Entraram para a História simplesmente pelo exagero de talento e carisma: sobrava para uma semana de oito dias. Faça de conta que não sabe nada disso e corra para o cinema para ter certeza outra vez.




Jornal Zero Hora - 08 fevereiro 2017
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 05/02/17

Desculpe por chorar


Quando alguém chora à minha frente, pareço uma pateta, não sei se abraço, se finjo que não está acontecendo nada, se começo a chorar também. Quase sempre começo a chorar também

Era janeiro e fazia muito calor. O Instituto Ling recém havia sido inaugurado e eu estava excitada para conhecer um dos pontos culturais mais bacanas de Porto Alegre, então fui até lá para assistir a Ayres Potthoff (flauta), Daniel Wolff (violão) e Rodrigo Alquatti (cello) no show Beatles em Concerto, num fim de tarde sofisticado, divertido e musicalmente impecável. Tudo sob a chancela do Porto Verão Alegre, esse mesmo que segue firme e forte.

Pois bem. Durante o espetáculo, um dos integrantes pediu licença para abrir um parêntese naquela playlist de sucessos dos Fab Four. Ele queria tocar uma música que seu pai, recentemente falecido, havia composto. Diante do consentimento da plateia, pediu: “Vou tentar tocá-la até o fim, mas me perdoem caso eu me emocione”. E tocou belamente, com a emoção controlada, ainda que visível.

Na hora, pensei: por que raios a gente pede desculpas por se comover? Lembrei de algumas pessoas que já caíram em prantos na minha frente escondendo o rosto, envergonhadas, e as compreendo, pois também tenho vontade de sumir quando choro diante dos outros. Os psicanalistas, acostumados a debulhações diárias em seus consultórios, poderiam responder: quando elas acontecem, seus pacientes costumam se desculpar?

Ninguém tem culpa alguma de sofrer, ninguém tem culpa por se sentir frustrado, ninguém tem culpa por sentir saudade, ninguém tem culpa por não conseguir reagir a seco às suas desordens internas. Deveríamos, sim, é nos sentir orgulhosos por não frear nem disfarçar nossas emoções, por permitir que elas extravasem, autorizando os outros a testemunharem esse momento em que estamos tão desprendidos, sendo tão humanos.

Curiosamente, o contrário não envergonha. Mais do que nunca, as pessoas têm sido grosseiras, estúpidas, deselegantes no trato, e não lhes bate um pingo de remorso, nenhuma inibição. Pedir desculpas, nem pensar.

Então por que pedir perdão por algo tão bonito, que é estar emocionado?

Acho que a pessoa emocionada se desculpa por constranger os outros. Sabe que a plateia, seja ela formada por 100 pessoas ou por uma só, se sente fragilizada diante de uma pessoa comovida. Ao testemunharmos alguém em situação tão delicada, não sabemos como agir, o que dizer. Quando alguém chora à minha frente, pareço uma pateta, não sei se abraço, se finjo que não está acontecendo nada, se começo a chorar também. Quase sempre começo a chorar também.

É por isso que certas pessoas pedem desculpas pela própria comoção. Sabem que uma emoção exposta não deixa ninguém indiferente, obriga a uma reação, e eles não querem dar trabalho. Pois é, os sentimentais têm dessas nobrezas.



Jornal Zero Hora - 05 fevereiro 2017
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 01/02/17


Ô, magrão



“Se você quer conhecer uma pessoa, veja como ela se comporta numa mesa de jogo.” É o que diz a sabedoria popular, que também recomenda: “Se você quer conhecer uma pessoa, viaje com ela”. Ambos os testes funcionam. Ver uma pessoa apostando dinheiro ou lidando com imprevistos garante um raio X aproximado de seu caráter.

Eu já acho que, se você quer conhecer uma pessoa, precisa conviver com ela no mínimo uns 50 anos e ainda assim estará sujeito a surpresas, mas elegerei também um método de conhecimento imediato, aquele do tipo que faz você dizer para si mesmo: “Humm, já vi tudo”. Como não jogo pôquer e não viajo todo dia, minha fórmula prosaica de identificação de espécies raras é reparar como a pessoa trata os garçons.

Pense no seu círculo de amigos e parentes: certo que você já foi com todos eles a algum restaurante, a um bar, a uma festa. É só prestar atenção.

Quase todos serão gentis, agradáveis, educados, eu sei: você não anda com trogloditas. Mas sempre tem aquele que joga água fora da bacia.

É o homem (ou mulher) que fala com o garçom num tom mais alto do que o normal, como se o sujeito fosse surdo. Ou levanta a voz porque pensa que deve deixar claro quem é que manda ali. Sabe aquele timbre autoritário, de quem acha que está sendo atendido por alguém que não irá entender o que está sendo solicitado se não for imposto algum “respeito”? Sério, quando vejo alguém ser intimidador com um funcionário que está nos servindo, fico com vontade de abrir um buraco no chão e me enfiar nele. Vergonha alheia.

Menos maquiavélico, mas também sem noção, é aquele que trata todos os garçons como se fossem os brothers do futsal, sem esperar um sinal de que a gaiatice está autorizada. Quando o ambiente é descontraído, tudo bem uma camaradagem – “e aí, chefe, qual o prato do dia?” –, invertendo simpaticamente a hierarquia presumida, ou “aí, irmão, sai um chope?” – beleza. 

Porém, uma vez eu estava num restaurante bem elegante, do tipo em que os garçons são treinados pelo cerimonial do Palácio de Buckingham e ganham mais do que os clientes da casa. Meu acompanhante não se intimidou: “Ô, magrão, essa mesa aqui está liberada?”. Não tínhamos reserva, mas como era tarde da noite, havia uma possibilidade. “Sim, senhor.”

“Valeu, magrão, vai trazendo uma gelada enquanto eu olho aqui o cardápio.”

“O meu nome é Roberto, senhor.”

“Bonito nome, magrão.”

Rapazes e moças, regrinha básica: nem arrogância, nem excesso de intimidade, e ao menos nos estabelecimentos gastronômicos reinará a paz no mundo, que já está ameaçada o suficiente.



Jornal Zero Hora - 01 fevereiro 2017
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 29/01/17


Qual é a sua praia?



Quando penso nos melhores momentos da minha infância, a memória me transporta para Torres. Foi lá que, menina, peguei muito jacaré com uma planonda de isopor, fiz castelos de areia, pesquei peixinhos que eram colocados em baldes, participei de piqueniques, deslizei pelas dunas, joguei frescobol. Dia de chuva era um desassossego, não havia gibi que fizesse o tempo passar, mas não chovia tanto naquela época: quase sempre o sol dava as caras desde o início de dezembro até o final de fevereiro, um esbanjamento de dias bons. Eu voltava das férias parecendo um pedaço de carvão, só apareciam o branco do olho e os dentes.

Hoje não pesco peixinhos nem deixo a pele desprotegida, mas é ainda na praia que sou mais eu. A proximidade com o mar me põe no meu devido lugar: não importa o que eu diga, faça, escreva – sou um grão de areia. É o que somos todos, o tempo inteiro, onde quer que estejamos: grãos de areia. Meu ego não se abala, inclusive concorda.

Falando em areia: há quem acredite que a praia ficaria mais perfeita sem ela. Misericórdia àqueles que não lembram como é relaxante sentar numa cadeirinha embaixo do guarda-sol e fazer curtos caminhos com o calcanhar, para frente e para trás, tendo uma caipirinha gelada em mãos.

Pode-se ter em mãos um livro também. Pois é, me sinto obrigada a incentivar a leitura, mas sendo perigosamente sincera: praia não é lugar para ler, a não ser que você esteja sozinha numa enseada esquecida por Deus. Aí, até recomenda-se, para dispersar os maus pensamentos. Mas em dia ensolarado e com gente em volta, não consigo prestar atenção numa única linha. Leio, leio, leio à beira-mar, e quando volto para casa releio, releio e releio as mesmas páginas.

Praia é ponto de encontro sem hora fixa pra chegar, sem convite impresso, sem répondez s’il-vou-plait. Balada aberta ao público, sem paredes, sem holofotes, o sorriso valendo como ingresso. Boca livre.

Praia é pra quem está de bem com a vida, embaixada internacional da liberdade, pátria do chinelo de dedo, passarela do biquíni, congresso mundial da tatuagem. O Brasil tem 8.000km de orla pra ninguém morrer de tédio e muito menos de rabugice.

Inferno emocional? Até isso praia minimiza. Quem já não deu uma choradinha em frente ao mar, num final de tarde, processando uma ardente dor-de-cotovelo? Você, eu, todo mundo, diante de ondas que avisavam: nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Para o bem e para o mal, um mantra.

As minhas, além de Torres: Bombinhas, Quatro Ilhas, Praia do Rosa e Ipanema. Me viram crescer, por dentro e por fora. Não há quem não tenha ao menos uma como cenário da própria história.




Jornal Zero Hora - 29 janeiro 2017
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 25/01/17

Arte de rua


O que é arte? Difícil responder com precisão. Arte é expressão de beleza, inteligência, harmonia, subjetividade, inquietação, espiritualidade, transcendência. Arte é uma manifestação sensorial a serviço do lúdico sem desprezar o engajamento político e social que porventura tenha. Arte é tudo o que encanta, extasia, comove. 

Arte é o que nos transporta para longe do racionalismo limitado e das trivialidades, é a droga autorizada que acelera nossa pulsação e nossos batimentos cardíacos, é o colírio mágico que nos permite desenvolver um olhar mais abrangente para o que nos cerca, é o amplificador da nossa sensibilidade, é a autorização para fugirmos de enquadramentos restritos e expandir nossa existência.

Não significa que toda arte seja ótima e linda. As reações divergem, nunca haverá consenso, mas é preferível discuti-la a ignorá-la.

Grafite também é arte. Não são pichações aleatórias com intuito de vandalizar, e sim desenhos que transmitem um sentimento ou uma ideia que se deseja compartilhar com os habitantes da cidade. É uma forma de personalizar o concreto, de provocar alguma surpresa, despertar a atenção de quem não enxerga mais aquilo que todo dia vê – paredes nuas.

Aconteceu em São Paulo. O prefeito João Doria comandou uma operação limpeza na capital, tentando colocar “ordem na casa”: grafites apenas em locais predeterminados a partir de agora. Tudo bem regularizar, mas há que se ter bom senso e jogo de cintura: os grafismos paulistanos davam colorido à urbe, enchiam de vida o que antes era um espaço de fastio monocromático. 

Doria poderia ter discutido com a população as novas regras para a execução de arte de rua sem ter recorrido a uma atitude truculenta: destruir arte já realizada é sempre um crime. As cenas que estão circulando pelas redes sociais, mostrando funcionários da prefeitura pintando de cinza as paredes grafitadas da cidade, são dolorosas. É a volta do opaco em detrimento do vibrante. Antiexcitação. A eliminação do gozo.

As cidades crescem e se tornam opressivas. É preciso resistir com menos carros, mais verde, mais artistas de rua, menos buracos, menos fios enroscados nos postes, mais mesas nas calçadas, mais flores, mais segurança, mais facilitações para a caminhada e o encontro, menos angústia, mais feiras, mais graça de viver. Colocar ordem na casa é, antes de tudo, aceitar que a cidade é mesmo uma casa, e não um jazigo, uma jaula, uma cela. O Brasil anda precisando urgentemente fazer as pazes com a alegria.



Jornal Zero Hora - 25 janeiro 2017
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22/01/17

ALMA


Sinto falta de uma integridade que vá além do profissionalismo, que ultrapasse o conceito de “correto” até alcançar, de novo, o experimentalismo e o risco

Tirando o resto, a alma é tudo o que sobra.”

Esse verso encerra um poema que escrevi há 15 anos, e desde então percebo que a alma vem sofrendo ações inconsequentes com o propósito de a aniquilarem. Meu manifesto a favor de sua resistência.

Em entrevista recente ao jornalista Fernando Eichenberg, o ator francês Jean Paul Belmondo fez uma reflexão sobre o bairro boêmio Saint-Germain-de-Près, em Paris, berço do existencialismo. Disse sentir saudades das noites de amor e das caves em que reinava uma vertigem de prazeres, segundo suas palavras. Hoje, o bairro foi tomado por butiques, e o Café de Flore e o Deux Magots são redutos de turistas.

Trata-se de uma observação sobre um bairro, apenas, mas podemos expandir essa ausência de alma para outras coisas mais, para quase tudo. Tenho escutado muita música e por mais que goste de novas bandas e intérpretes, parece que há um excesso de ensaio e tecnologia. Quase não se escuta mais um solo indócil de guitarra, uma voz afinada com a dor, a sensação de que do resultado daquilo depende a vida do artista. 

Sinto falta de uma integridade que vá além do profissionalismo, que ultrapasse o conceito de “correto” até alcançar, de novo, o experimentalismo e o risco, dando a volta completa. Shows ao vivo fascinam por isso. O teatro fascina por isso. É quando a alma escapa da prisão que a técnica impõe e dá uma piscadinha para a plateia.

Gosto de usar o exemplo de Picasso, que estudou muitos anos o desenho clássico, acadêmico, até se sentir seguro para trocar olhos e bocas de lugar. Estamos trocando olhos e bocas de lugar por modismo, por tendência de mercado, não por uma necessidade íntima de transcender e tocar em algo que ainda nos seja misterioso.

A alma é justamente isso, a casa do mistério, onde as emoções não são reconhecidas pelo nome, e sim pelo que provocam. Onde a simplicidade não reage às críticas, reconhece o próprio valor. Onde não existe juventude e velhice, tudo é atemporal. Onde a essência reside, ainda que meio escondida.

O resto? É ambição, exibicionismo, vaidade, angústia, medo da morte, rendição à opinião alheia, sensação de incompletude, vergonha dos fracassos, pudores, palavras demais, obsessão em cumprir metas, barulho excessivo para espantar o silêncio, negação dos próprios desejos.

Tirando o resto, a alma é tudo que sobra.




Jornal Zero Hora - 22 janeiro 2017
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Resultado de imagem para пусть сбудется то о чем мы молчим
"Queria ser um segredo que só tu pudesses contar."



(Miguel Esteves Cardoso)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 18/01/17

Sobre cada um de nós


É difícil falar de um filme sem dar spoiler, ainda mais quando se trata de um thriller, então vou me reter a uma cena aparentemente sem importância do eletrizante Animais Noturnos, de Tom Ford. São três narrativas interligadas, e uma delas mostra o início do relacionamento entre um aspirante a escritor e sua jovem esposa. Cena: ela está deitada no sofá terminando a leitura do primeiro original do marido e ele rói as unhas aguardando o veredito. Quando ela termina, em vez de purpurina, joga um balde de água fria no coitado. A trama não a seduziu. Ela arrisca um conselho: “Não escreva sobre você”. No que ele rebate: “Todos escrevem sobre si mesmos”. E sai da sala frustrado.

Cerca de 20 anos depois, já não formam um casal. Ela está instalada num segundo e entediante casamento, quando recebe pelo correio o manuscrito de um novo livro do ex-marido, que pede mais uma vez a sua opinião. Ela então começa a ler e não consegue largar, pois, além de cativante, é uma história aterradora e com consequências trágicas, ou seja, nada do que foi escrito aconteceu de fato – pelo visto, ele seguiu o conselho dela.

E aqui tergiverso, levantando esta questão recorrente sobre o ofício do escritor. Sempre escrevemos sobre nós mesmos ou somos capazes de inventar uma boa história e contá-la sem nenhuma interferência do que nos passa dentro?

Quem se dedica a romances policiais talvez alcance o desprendimento total. Agatha Christie, George Simenon, Raymond Chandler e tantos outros que escreveram obras em série eram máquinas de produção de textos e suas questões particulares pareciam pouco influenciá-los. Alguns autores brasileiros, gaúchos inclusive, me dão a mesma impressão: não se misturam com seus personagens. Suas criaturas não revelam nada do que acontece na vida prosaica do criador.

Ainda assim, sei que estou enganada. Porque ao sentar em frente ao computador para escrever, fazemos uma escolha. Escolhemos o tom, escolhemos a atmosfera, escolhemos ir por um caminho e não por outro, e essas seleções vêm daquilo que nos move, interessa, apavora, incomoda ou diverte intimamente. Livros também têm DNA.

Bem disfarçado, mal disfarçado ou às claras: nossa ficção nos espelha – todo tipo de arte, aliás, é um manifesto pessoal. Pode ser transmitido com várias camadas sobrepostas, mas a nossa nudez está ali, encoberta e intuída. Animais Noturnos é, toscamente resumindo, um filme sobre um livro de suspense que parece não ter nada a ver com nada, mas o sentimento do autor grita e sua principal leitora escuta. Por mais longe que a imaginação vá, alguma coisa sempre é dita ao pé do ouvido.



Jornal Zero Hora - 18 janeiro 2017
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017


"In your absence, you are everywhere." Six Word Story (via natashakills):

"Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."



(Machado de Assis)
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